nunca gostei de palavrões

mas por que, caralho, cacete é palavrão? eu gosto de cacete, eu gosto de caralho! principalmente bem duros e cheios de porra. já com a porra, tenho uma relação ambígua. gosto quando ela jorra, porque significa que o fiz morrer de tesão, mas não gosto do seu gosto. não sei se rejeito o gosto porque é ruim mesmo ou porque fui picada pelo bicho do feminismo e me sinto subjugada ao colocar porra na boca. também não gosto de porra em outras partes do meu corpo. não sei se porque também parece subjugar-se ou porque parece sujo e sujeira é socialmente não aceita – inclusive pela sociedade machista. porra escorrendo pela vagina pode ser bom, é quente e mais lubrificante, mas não gosto nem de pensar, porque arrisca gravidez.

porra é um bagulho contraditório mesmo, como tudo na vida, mas não tem nada de absurdo, é natural. o bizarro é não poder falar abertamente sobre a porra e ela ainda ser considerada palavra de calão. aliás, o que, boceta, é calão? quem foi que o instituiu e por que ainda se dá atenção a um termo que está mais do que calejado, já é um calo por si só? mas, voltando à porra, não consigo entender por que esta é uma “má palavra”, se é a designação de uma das substâncias responsáveis por dar a vida e a vida é algo indubitavelmente sagrado. e por que a porra é uma palavra feminina, se serve para nomear um componente masculino? seria para delegar, inconscientemente, de vez, à mulher a responsabilidade total sobre a maternidade? seria para reafirmar a bíblia reforçando que a mulher (a porra) vem do homem (o caralho)?

todos sabemos que nada disso procede, mas muitos de nós insistimos em perpetuar essa lógica de superioridade de um sexo frente ao outro ­– até na hora do sexo. e as expressões que usamos pra falar daquilo dizem muito sobre a maneira como pensamos naquilo e até como fazemos aquilo. a começar por aquilo mesmo. aquilo o caralho! aquilo não é nada e sexo, definitivamente, não tem nada a ver com um aquilozinho qualquer. se sexo fosse tão sem graça a ponto de ser considerado um mero aquilo, não seria necessário censurar seu verdadeiro nome. aliás, censura desnecessária e absolutamente indesejável, mas a sociedade parece que tem medo daquilo, ao mesmo tempo em que coloca aquilo como o maior desejo a ser satisfeito. assim, fabrica reprimidos em série que só pensam naquilo, mas raramente praticam aquilo, muito menos falam abertamente daquilo e terminam suas vidas sem conhecer verdadeiramente um quarto sequer do universo custosamente escondido debaixo d’um reles aquilo.

além disso, saem dizendo por aí que tal cara comeu tal mina ou o cu de tal bofe. ora, se comer é o verbo que indica introduzir um corpo (no caso, um alimento) em uma cavidade (no caso, a boca), fica fácil perceber quem é que come quem numa transa. mas as mulheres são o sexo forte. muitas de nós estamos acostumadas a aguentar um pau bem duro entrando em nossas vaginas freneticamente e ainda gostamos muito disso, mas poucos homens suportariam a ideia de seu adorado e valioso falo sendo engolido, mastigado, deglutido por uma xexeca sedenta por prazer e porra. (meus pêsames aos que se encaixam neste último grupo). o verbo dar também me parece muito mal empregado. primeiro porque, seguindo a lógica do verbo comer, quem dá é quem introduz algo em algum lugar e não o contrário. em segundo lugar, porque coloca o ato sexual quase como uma operação de venda ou, pior, de favor. “fulana me deu”. logo imagino a imagem da santa fulana fazendo caridade ao nobre ciclano ou apenas cumprindo seu dever de dar, sem pedir nada em troca, como faz o bom súdito.

tem gente que gosta de se fantasiar de rei, rainha ou vassalo. só entre quatro paredes, porque na cama vale tudo. todos os fetiches são permitidos e até encorajados. o sexo se tornou – ou melhor, foi tornado – um lugar de fuga do insuportável fardo da vida ultracapitalista-moralista-pósmoderna. lá pode tudo. nada é ilegal, imoral nem engorda – ao contrário, emagrece mais que academia. é realmente tudo aquilo. mas praquilo tudo funcionar, é preciso ler a última reportagem especial sobre como satisfazer seu homem na cama, os 50 passos para se tornar o rei do sexo, tomar cuidado para não cometer as 100 maiores gafes sexuais, decorar o mapa dos pontos A, B, C, D, G, Y, T, W, Z, ¶, tudo isso mantendo a mais perfeita expressão de naturalidade, engolindo e, o mais importante: sem brochar.

siririca! pleno século 21, era de aquário, e sexo ainda é aquele tabu. talvez, quando pudermos levar uma vida da qual não se precisa desesperadamente fugir, quando não falarmos mais daquilo, quando palavras de calão forem algo como subjugar, humilhar ou estuprar, daí sim possamos foder, trepar, dar umazinha, copular, meter, fornicar, ralar e rolar, gozar, chupar, lamber, beijar, masturbar, punhetar, bater uma, fazer boquete, fio terra, 69, tchaca na butchaca, ménage, orgia, swing, suruba, e – por que não? – amar de verdade. porra!

Bia Ska

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