raiva

materializo em você uma raiva que não é sua. que também não é minha. mas mesmo assim me constitui. uma raiva social e pessoal. uma raiva intrínseca profunda e completa. uma raiva sem pai nem mãe. difusa. diluída em cada pedaço da vida. que não sei exatamente de onde vem nem pra onde vai mas que é onipresente. uma raiva desenvolvida ao longo dos séculos. quilômetros e quilômetros de raízes tortuosas com nódulos de ódio duro encravados a cada curva. uma raiva junção de tantas raivas de todas as mulheres que a sentiram ao longo da história. uma raiva de todas as mulheres meninas e embriões XX que existem neste momento. uma raiva que raivosamente prevejo durar ainda por muitas raivas passadas de mãe pra filha pra mãe pra amiga pra prima vizinha irmã companheira desconhecida. que deve ser como a raiva dos negros frente aos brancos e dos pobres frente aos ricos do dominado frente ao dominador. uma raiva tão injusta que é mais injusta que a injustiça de sentir essa raiva pelas injustiças que a provocaram e provocam. a injustiça das liberdades que você teve e eu não. que me faz ter raiva do que te aconteceu de bom e me foi negado desde a infância só por eu ser do sexo oposto ao seu. tenho raiva quando você me conta que sempre pôde levar suas peguetes namoradas e ficantes pra dormir na sua casa desde a adolescência com encorajamento da sua mãe. tenho raiva da minha mãe que nunca foi aberta comigo sobre sexo e poderia ter me evitado uma série de inseguranças sem tamanho que me tiraram a tranquilidade durante tanto tempo perdido. tenho raiva de tudo o que você sabe sobre sexo porque você o aprendeu usando essa liberdade que demorei muito mais pra conquistar ainda que a tenha conquistado e essa conquista talvez seja ainda mais prazerosa que o seu prazer sempre liberto mesmo sabendo que essa sua liberdade também é condicionada e portanto não tão livre assim mas de qualquer forma te coloca em posição de dominante. tenho raiva de gostar do seu corpo lindo do jeito que ele é mesmo gostando hoje do meu corpo também do jeito que ele é porque sempre me foram negados e reprimidos os corpos. tenho raiva de não conseguir me libertar da necessidade da depilação incutida socialmente minha vida toda mesmo hoje sabendo que isso é apenas uma imposição e que como toda imposição deve ser contestada. tenho raiva de não saber exatamente como sou porque sou porque fui direcionada a ser ou porque me auto-direcionei a ser pra me contrapor ao que fui direcionada. tenho raiva do prazer que meu corpo te dá por satisfazer alguns padrões dessa sociedade machista e misógina mesmo sabendo que meu corpo é mesmo assim e a culpa não é minha nem de ninguém. tenho raiva do seu sucesso profissional mesmo torcendo sempre pelo seu melhor porque esse sucesso te é invariavelmente facilitado só porque você é homem. tenho raiva de não conseguir me livrar dessa raiva que brota a todo momento por finalmente enxergar as injustiças que estão por toda parte mesmo sabendo que essa raiva é também libertadora. tenho raiva de ter essa raiva incrustrada na garganta tal punhal que incomoda e forma parte dala mesma mas sem a qual ela não se fecharia e ainda está em crescimento essa parede própria forte o suficiente pra respirarmos sem seus vestígios. tenho raiva que o machismo seja essa maldição profundamente arraigada em nossos seres que incomoda muito se não temos consciência dela mas que ainda incomoda muito mesmo quando temos essa consciência porque nos impõe sempre algo entre o ser pleno. um ainda um mesmo que um apesar. sempre algo que não nos deixa ser que nos impede a existência. tenho raiva de não poder olhar o mundo sem passar de alguma maneira pelo direcionamento dessa raiva. tenho raiva do que essa misoginia te faz sentir de bom ou ruim mesmo que você não dimensione isso consciente ou inconscientemente como raiva porque não sei como o homem sente a repressão de ter que ser o dominante que é sim uma repressão também mas sei muito bem como a mulher sente a repressão de ter que ser a dominada que é sim muito pior que ser o dominante. tenho raiva dessa raiva diferença imposta entre nós que nos impede de nos conhecermos e nos amarmos inteiros desde pequenos que nos roubou todas as nossas primeiras coisas desde nossos primeiros amores o direito de descobrir o amor e o sexo e a amizade puros sem nenhum resquício desses direcionamentos sexistas conservadores. tenho raiva de não conseguir dimensionar essa raiva que nos ultrapassa e não poder materializá-la numa forma palpável nem que fosse você mesmo e pudesse pegá-la senti-la observar seus contornos seu peso seu volume toque cheiro som pensamentos emoções e pudéssemos conversar discutir brigar até quem sabe nos entendermos e podermos nos amar de verdade na clareza além desse fantasma fosco a nos turvar as veias.

Bia Ska

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nunca gostei de palavrões

mas por que, caralho, cacete é palavrão? eu gosto de cacete, eu gosto de caralho! principalmente bem duros e cheios de porra. já com a porra, tenho uma relação ambígua. gosto quando ela jorra, porque significa que o fiz morrer de tesão, mas não gosto do seu gosto. não sei se rejeito o gosto porque é ruim mesmo ou porque fui picada pelo bicho do feminismo e me sinto subjugada ao colocar porra na boca. também não gosto de porra em outras partes do meu corpo. não sei se porque também parece subjugar-se ou porque parece sujo e sujeira é socialmente não aceita – inclusive pela sociedade machista. porra escorrendo pela vagina pode ser bom, é quente e mais lubrificante, mas não gosto nem de pensar, porque arrisca gravidez.

porra é um bagulho contraditório mesmo, como tudo na vida, mas não tem nada de absurdo, é natural. o bizarro é não poder falar abertamente sobre a porra e ela ainda ser considerada palavra de calão. aliás, o que, boceta, é calão? quem foi que o instituiu e por que ainda se dá atenção a um termo que está mais do que calejado, já é um calo por si só? mas, voltando à porra, não consigo entender por que esta é uma “má palavra”, se é a designação de uma das substâncias responsáveis por dar a vida e a vida é algo indubitavelmente sagrado. e por que a porra é uma palavra feminina, se serve para nomear um componente masculino? seria para delegar, inconscientemente, de vez, à mulher a responsabilidade total sobre a maternidade? seria para reafirmar a bíblia reforçando que a mulher (a porra) vem do homem (o caralho)?

todos sabemos que nada disso procede, mas muitos de nós insistimos em perpetuar essa lógica de superioridade de um sexo frente ao outro ­– até na hora do sexo. e as expressões que usamos pra falar daquilo dizem muito sobre a maneira como pensamos naquilo e até como fazemos aquilo. a começar por aquilo mesmo. aquilo o caralho! aquilo não é nada e sexo, definitivamente, não tem nada a ver com um aquilozinho qualquer. se sexo fosse tão sem graça a ponto de ser considerado um mero aquilo, não seria necessário censurar seu verdadeiro nome. aliás, censura desnecessária e absolutamente indesejável, mas a sociedade parece que tem medo daquilo, ao mesmo tempo em que coloca aquilo como o maior desejo a ser satisfeito. assim, fabrica reprimidos em série que só pensam naquilo, mas raramente praticam aquilo, muito menos falam abertamente daquilo e terminam suas vidas sem conhecer verdadeiramente um quarto sequer do universo custosamente escondido debaixo d’um reles aquilo.

além disso, saem dizendo por aí que tal cara comeu tal mina ou o cu de tal bofe. ora, se comer é o verbo que indica introduzir um corpo (no caso, um alimento) em uma cavidade (no caso, a boca), fica fácil perceber quem é que come quem numa transa. mas as mulheres são o sexo forte. muitas de nós estamos acostumadas a aguentar um pau bem duro entrando em nossas vaginas freneticamente e ainda gostamos muito disso, mas poucos homens suportariam a ideia de seu adorado e valioso falo sendo engolido, mastigado, deglutido por uma xexeca sedenta por prazer e porra. (meus pêsames aos que se encaixam neste último grupo). o verbo dar também me parece muito mal empregado. primeiro porque, seguindo a lógica do verbo comer, quem dá é quem introduz algo em algum lugar e não o contrário. em segundo lugar, porque coloca o ato sexual quase como uma operação de venda ou, pior, de favor. “fulana me deu”. logo imagino a imagem da santa fulana fazendo caridade ao nobre ciclano ou apenas cumprindo seu dever de dar, sem pedir nada em troca, como faz o bom súdito.

tem gente que gosta de se fantasiar de rei, rainha ou vassalo. só entre quatro paredes, porque na cama vale tudo. todos os fetiches são permitidos e até encorajados. o sexo se tornou – ou melhor, foi tornado – um lugar de fuga do insuportável fardo da vida ultracapitalista-moralista-pósmoderna. lá pode tudo. nada é ilegal, imoral nem engorda – ao contrário, emagrece mais que academia. é realmente tudo aquilo. mas praquilo tudo funcionar, é preciso ler a última reportagem especial sobre como satisfazer seu homem na cama, os 50 passos para se tornar o rei do sexo, tomar cuidado para não cometer as 100 maiores gafes sexuais, decorar o mapa dos pontos A, B, C, D, G, Y, T, W, Z, ¶, tudo isso mantendo a mais perfeita expressão de naturalidade, engolindo e, o mais importante: sem brochar.

siririca! pleno século 21, era de aquário, e sexo ainda é aquele tabu. talvez, quando pudermos levar uma vida da qual não se precisa desesperadamente fugir, quando não falarmos mais daquilo, quando palavras de calão forem algo como subjugar, humilhar ou estuprar, daí sim possamos foder, trepar, dar umazinha, copular, meter, fornicar, ralar e rolar, gozar, chupar, lamber, beijar, masturbar, punhetar, bater uma, fazer boquete, fio terra, 69, tchaca na butchaca, ménage, orgia, swing, suruba, e – por que não? – amar de verdade. porra!

Bia Ska