Poema de amor, próprio.

abortaria as ilusões

abortaria você

aborto é bom.

vem quando todas as sementes já foram plantadas e resultaram estéril

vem quando a comida é mastigada apenas mecanicamente

vem do tédio da desavença

das vontades esquecidas

da angústia dúbia dos nãos nunca pronunciados

Aborto é bom.

é evitar o caos

premeditar a desgraça

aborto é responsabilidade com a vida

de que vida estamos falando?

A vida com histórias, afetos, lembranças e dores sacrificaria-se pela presumida, pela duvidosa?

aborto é bom

e não é obrigatório

é saída

a última

é pra quem não pode continuar

vem quando não há mais nada pra vir. não se espera mais nada. acabou-se qualquer esperança.

Ou,

quando a esperança

(burra)

ainda persiste, mas o cansaço das retinas e músculos nos implora por parar.

Aí paramos,

eu paro.

Eu vou abortar você. De mim. De nós. Nem que seja com as minhas mãos.

Catarina Longa.

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pós carnaval

quarta-feira de cinzas
folião deixa glitter no corpo e púbis
desaparece da retina
fica uma saudade dolorida
de quem veio só pro carnaval
aos poucos esqueço seu rosto
a sua voz
e não sei porquê sofro da falta dessa ideia pura
que é ficção e menos memória
esse corpo com pau pulante
que não tem nome
só tem glitter
que escreve seu nome no peito
em letras evanescentes
se limpam com as ondas que batem
à madrugada

Simone Alegre

Poema para ser lido devagar

de suas delicadas mãos, só sinto os dedos
a percorrer ombros costas coxas
Como que semeando algo
de suas delicadas mãos e meus ombros costas e coxas nasce a semente
que é fluido deslizante
Então
de seus deslizantes dedos
sentimos o calor do respiro forte
nossoscorpostentamfundirse
Quase sem conseguir

Palpitantes ostras
Escorrendo calafrios
Os gritos sussurrados e compassados
Antecipam os corpos já agora fracos
A cair

em sono de morte

Catarina Longa

fode-te

 

fode-te
queria que te fodesse
que te enfiasse o pé na poça
na jaca
na lama
na quina que desponta da cama
 
fode-te
queria que te fodessem.
queria observar-te
com a cara no chão
com a cara de pau
e com o pau nas mãos
 
fode-te
queria foder-te
saber-te malquisto,
petição de despejo.
sem teto
sem desejo
 
fode-te
queria que me fodesse,
meu corpo esvaído.
amar-te,
como quem te sabe
um fodido.