Editora Patuá lança “entranhamento”, poemas de Bruna Escaleira

Salve-salve, circulantes!

É com muito tesão que o Circular de Poesia Livre convida a tod@s para o lançamento do livro de estreia de uma de nossas integrantes, a Bia Ska.

O evento será semana que vem e contará com recital nosso 🙂

Esperamos vocês lá!

Todas as informações vão abaixo:

Editora Patuá lança “entranhamento”, poemas de Bruna Escaleira

 

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entranhamento é o livro de estreia de Bruna Escaleira e reúne sua produção entre 2012 e 2013. A autora, que já publicou poemas em revistas e realiza vários projetos literários, agora nos reúne algumas séries de poemas em uma obra única de mais fôlego, editada pela Patuá.

 

O lançamento será na quinta-feira 27 de março no Bar Canto Madalena (Rua Medeiros de Albuquerque, 471, Vila Madalena), das 19h às 23h, e contará com apresentação do Circular de Poesia Livre. A entrada é gratuita e o livro, em edição especial em capa dura, estará à venda por R$ 35,00 (somente dinheiro ou cheque). Também é possível adquiri-lo pelo site da editora.

 

despir-se

 

escrever é o ato público

mais íntimo

porque as letras tocam apenas

quando a pele se faz eu lírico

só o poeta nu

escuta as flores

Escrever: o ato público mais íntimo

 

Prefácio da escritora Ana Rüsche

 

entranhamento é uma visita a si mesmo. Amorosa, afável, nem sempre com a mesa posta, muitas vezes, com a bagunça da cama desarrumada. Visita ao âmago, às essências das coisas, aos amigos, ao doméstico, ao que está além da pele, adentro e mais adentro. O transe ancestral de visitar outros lugares e devolve-los como estrangeira.

 

Começa com uma janela aberta, a que trazia o mundo a nos visitar. Com uns pisca-piscas mal colocados, a televisão ligada na penumbra da sala, o aconchego de porta aberta. Que se fecha em torno da boca, a tua boca, boca leve, boca que cura. Que tece as “odeeiras” (“te odeio sem força alguma“), que tece o amor (“uma insanidade institucionalizada”). Embrenha-se, escancara-se.

 

O ato público mais íntimo. Escrever. Qualquer ideia esbarra na poesia. Porque publicar é inevitável e necessário.

 

Veja mais poemas aqui.

 

Sobre a autora

Bruna Escaleira nasceu em 27 de outubro de 1988 em São Paulo. Formou-se em Jornalismo pela ECA-USP, cursa Pós-Graduação em Jornalismo Cultural na FAAP e trabalha como freelance.

 

Escreve desde que aprendeu a combinar as letras. Publica no blog http://algo-a-declarar.blogspot.com desde 2007. Faz parte do coletivo artístico literário Circular de Poesia Livre, que discute feminismo, sexualidade e sexo.

 

Colabora com o site do Instituto MundoMundano e participou de suas duas coletâneas impressas. Teve poemas publicados no site da Originais Reprovados – A revista literária dos alunos da USP #6(2010) e na Originais Reprovados #7 (2011) impressa. Foi selecionada para a coletânea do Concurso Nacional Novos Poetas, Prêmio Poetize 2014.

 

entranhamento é sua primeira obra completa publicada e reúne criações de 2012 a 2013 – a capa também é de sua autoria. algo a declarar será seu segundo livro publicado, e reúne textos produzidos entre 2007 e 2012, com ilustrações da própria autora.

 

Para saber mais:

www.brunaescaleira.com.br

 

Sobre a editora

A Editora Patuá – Livros são amuletos – é uma alternativa no mercado editorial: publica bons autores que ainda não encontraram espaço nas grandes editoras, mas que não desejam pagar pela edição da própria obra, apresentando ao público livros com excelente qualidade gráfica e, sobretudo, literária.

 

O foco editorial é a Literatura Brasileira Contemporânea, nos gêneros poesia, conto, crônica e romance.

 

Em 2013, ganhou destaque com a premiação do romance Desnorteio, de Paula Fábrio, pelo São Paulo de Literatura na categoria estreante, e pela indicação de Vário som, de Eliza Andrade Buzzo aos finalistas do Prêmio Jabuti na categoria poesia.

 

Para saber mais:

www.editorapatua.com.br

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credo

creio na menstruação, toda poderosa

criadora do vazio que me preenche

e na autonomia sobre meu destino

só meu

 

creio na contracepção

nas santas barreiras elásticas

na responsabilidade compartilhada

na autodeterminação

na igualdade conquistada

no gozo livre

 

porém,

 

em nome do anticoncepcional masculino, lutaremos

 

e que seja feita nossa justiça

por todos os séculos e séculos

 

Bia Ska

Das desvantagens

Não entendem, pobre diabos

não entendem a liberdade feminina

O sair sem autorização

o escolher-se com quem se deitar.

 

Não entendem, pobres diabos

Como pode uma moça

Não tomar pílulas

Exigir camisinhas e, mais, possuí-las

Coleções de tamanhos, cores, cheiros.

 

não se dão com a liberdade.

 

Mas, o que tem o pau com a prisão?

Talvez o mesmo que o cu com as calças

 

Mas não se dão, pobres diabos.

Não entendem uma negação

Ah! Eles insistem

querem explicações

 

Mas, o que é que tem pau com prisão?

Se se ter algum pau é se ter alguma liberdade

Qual pode ser sua relação?

Si Alegre

o dia em que Eva descobriu que comer maçã não era pecado

depois de lavar a louça do café da manhã
eva ligou a tevê
e ana maria fazia um strudel de maçã. 
 
eva ficou chocada
mas vê se pode passar isso essa hora, bem antes do desenho animado!
e essa pobre mulher,
eva tinha que avisar que comer maçã era um puta dum pecado.

com certeza, bem isso não fazia!
porque eva,  expulsa do jardins, 
bem sabe que uma maçã não vale a periferia.
 
mas foi aí que adão chegou – mais cedo e mais bonito que eva não viu porque resistir
e nos braços dele, ela logo quis cair.
e em meio aos beijos de adão
eva esqueceu do strudel, da maçã e da televisão.
 
e foi quando ela própria gemia
que ouviu o HUMMM de ana maria.
ela então sorriu e virou-se de lado.
e foi aí que que eva  descobriu
que é balela essa coisa de pecado.

Mari Brecht

estrangeiro

que língua é a sua?

que língua é a nossa? 

 

nua

s’empossa

em bossa

e possa 

livrar-me do grito do gozo preso na garganta. 

OGRITODOGOZOPRESONAGARGANTA 

escorre agora líquido pela sua garganta.

minha pátria, sua língua.

tua pele, minha língua. 

poliglotas.

esbaldamo-nos

 

em silêncio.

 

 

Mari Brecht

raiva

materializo em você uma raiva que não é sua. que também não é minha. mas mesmo assim me constitui. uma raiva social e pessoal. uma raiva intrínseca profunda e completa. uma raiva sem pai nem mãe. difusa. diluída em cada pedaço da vida. que não sei exatamente de onde vem nem pra onde vai mas que é onipresente. uma raiva desenvolvida ao longo dos séculos. quilômetros e quilômetros de raízes tortuosas com nódulos de ódio duro encravados a cada curva. uma raiva junção de tantas raivas de todas as mulheres que a sentiram ao longo da história. uma raiva de todas as mulheres meninas e embriões XX que existem neste momento. uma raiva que raivosamente prevejo durar ainda por muitas raivas passadas de mãe pra filha pra mãe pra amiga pra prima vizinha irmã companheira desconhecida. que deve ser como a raiva dos negros frente aos brancos e dos pobres frente aos ricos do dominado frente ao dominador. uma raiva tão injusta que é mais injusta que a injustiça de sentir essa raiva pelas injustiças que a provocaram e provocam. a injustiça das liberdades que você teve e eu não. que me faz ter raiva do que te aconteceu de bom e me foi negado desde a infância só por eu ser do sexo oposto ao seu. tenho raiva quando você me conta que sempre pôde levar suas peguetes namoradas e ficantes pra dormir na sua casa desde a adolescência com encorajamento da sua mãe. tenho raiva da minha mãe que nunca foi aberta comigo sobre sexo e poderia ter me evitado uma série de inseguranças sem tamanho que me tiraram a tranquilidade durante tanto tempo perdido. tenho raiva de tudo o que você sabe sobre sexo porque você o aprendeu usando essa liberdade que demorei muito mais pra conquistar ainda que a tenha conquistado e essa conquista talvez seja ainda mais prazerosa que o seu prazer sempre liberto mesmo sabendo que essa sua liberdade também é condicionada e portanto não tão livre assim mas de qualquer forma te coloca em posição de dominante. tenho raiva de gostar do seu corpo lindo do jeito que ele é mesmo gostando hoje do meu corpo também do jeito que ele é porque sempre me foram negados e reprimidos os corpos. tenho raiva de não conseguir me libertar da necessidade da depilação incutida socialmente minha vida toda mesmo hoje sabendo que isso é apenas uma imposição e que como toda imposição deve ser contestada. tenho raiva de não saber exatamente como sou porque sou porque fui direcionada a ser ou porque me auto-direcionei a ser pra me contrapor ao que fui direcionada. tenho raiva do prazer que meu corpo te dá por satisfazer alguns padrões dessa sociedade machista e misógina mesmo sabendo que meu corpo é mesmo assim e a culpa não é minha nem de ninguém. tenho raiva do seu sucesso profissional mesmo torcendo sempre pelo seu melhor porque esse sucesso te é invariavelmente facilitado só porque você é homem. tenho raiva de não conseguir me livrar dessa raiva que brota a todo momento por finalmente enxergar as injustiças que estão por toda parte mesmo sabendo que essa raiva é também libertadora. tenho raiva de ter essa raiva incrustrada na garganta tal punhal que incomoda e forma parte dala mesma mas sem a qual ela não se fecharia e ainda está em crescimento essa parede própria forte o suficiente pra respirarmos sem seus vestígios. tenho raiva que o machismo seja essa maldição profundamente arraigada em nossos seres que incomoda muito se não temos consciência dela mas que ainda incomoda muito mesmo quando temos essa consciência porque nos impõe sempre algo entre o ser pleno. um ainda um mesmo que um apesar. sempre algo que não nos deixa ser que nos impede a existência. tenho raiva de não poder olhar o mundo sem passar de alguma maneira pelo direcionamento dessa raiva. tenho raiva do que essa misoginia te faz sentir de bom ou ruim mesmo que você não dimensione isso consciente ou inconscientemente como raiva porque não sei como o homem sente a repressão de ter que ser o dominante que é sim uma repressão também mas sei muito bem como a mulher sente a repressão de ter que ser a dominada que é sim muito pior que ser o dominante. tenho raiva dessa raiva diferença imposta entre nós que nos impede de nos conhecermos e nos amarmos inteiros desde pequenos que nos roubou todas as nossas primeiras coisas desde nossos primeiros amores o direito de descobrir o amor e o sexo e a amizade puros sem nenhum resquício desses direcionamentos sexistas conservadores. tenho raiva de não conseguir dimensionar essa raiva que nos ultrapassa e não poder materializá-la numa forma palpável nem que fosse você mesmo e pudesse pegá-la senti-la observar seus contornos seu peso seu volume toque cheiro som pensamentos emoções e pudéssemos conversar discutir brigar até quem sabe nos entendermos e podermos nos amar de verdade na clareza além desse fantasma fosco a nos turvar as veias.

Bia Ska